top of page

Do seu olhar à conservação: Como maximizar o valor das suas observações de aves para a conservação

há 16 horas
6 min de leitura
Foto: Leonardo Borrelli
Foto: Leonardo Borrelli

Você já parou para prestar atenção nos sons e movimentos que acontecem ao seu redor todos os dias? Seja o canto de um passarinho que cruza o céu enquanto você toma um café na sacada do prédio, a surpresa de ver uma espécie colorida numa árvore da rua, ou aquela expedição planejada no interior de uma floresta conservada.


O prazer de simplesmente parar, exercitar os sentidos e observar as aves (birdwatching) é uma das atividades de conexão com o meio ambiente  mais democráticas e transformadoras que existem. Ela muda a nossa percepção sobre o espaço onde vivemos, revelando que a natureza não está apenas em documentários distantes,  ela compartilha a rotina com a gente.


Mas hoje, graças à tecnologia e aos aplicativos no celular, essa mudança de olhar pode ir muito além do encanto pessoal: ela pode contribuir diretamente para a ciência cidadã. E a beleza dessa atividade é que toda observação tem valor. O registro de um sanhaço na janela, um bando de periquitos urbanos ou de uma tesourinha tem uma importância científica preciosa, tão fundamental quanto o avistamento de uma espécie rara dentro de uma Unidade de Conservação.


Para que essa percepção se converta em conservação real, só precisamos de um detalhe: saber como maximizar o valor dos nossos registros. Neste artigo, você vai descobrir como transformar sua atenção diária em dados que protegem a biodiversidade!


O poder de reunir as observações de milhares de pessoas em uma única plataforma de dados


Quando a ciência cidadã se torna uma prática contínua, os resultados são impressionantes. A soma das observações individuais cria um banco de dados de alcance global (observações do eBird, iNaturalist e outras plataformas são enviadas para o banco de dados global, GBIF) e apoia políticas públicas no Brasil inteiro. Juntos, estamos construindo um conhecimento da distribuição e movimentos das aves num nível de detalhe que não foi possível no passado. Entre as aplicações da ciência cidadã são:


Mapas dinâmicos de distribuição e migração


Com as informações enviadas por milhares de pessoas no dia a dia, surgem mapas fascinantes sobre os movimentos das aves ao longo do ano:

  • Surpreenda-se com a rota das aves: Clique para ver a animação de abundância da tesourinha e outras espécies e entenda, com a ajuda de dados de cientistas cidadãos, como espécies tão presentes no nosso dia a dia desenham rotas migratórias impressionantes.

  • Entenda a distribuição de espécies ameaçadas: Veja com seus próprios olhos o mapa de abundância do maçarico-acanelado e identifique as áreas prioritárias onde os dados da comunidade estão ajudando a proteger essa espécie vulnerável.


    maçarico-acanelado (calidris subruficollis). Foto: Raphael Kurz.
    maçarico-acanelado (calidris subruficollis). Foto: Raphael Kurz.

Identificação de Áreas Prioritárias


Dados de ciência cidadã são utilizados diretamente por organizações, como por exemplo, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e a SAVE Brasil para identificar as áreas mais importantes para a conservação das aves e outras espécies.


Informação sobre espécies ameaçadas


Informações de ciência cidadã estão se tornando um componente essencial na avaliação de espécies em listas vermelhas estaduais, nacionais e global. Com a democratização de ciência, temos a possibilidade de atualizar informações sobre a distribuição e ocorrência de espécies ameaçadas em tempo record, e contribuir no monitoramento das populações.   

O registro feito na sacada do seu apartamento ou na praça do bairro ajuda a compor o panorama nacional utilizado para criar políticas públicas de conservação e estabelecer novas Unidades de Conservação!


Escolhendo a Plataforma Certa para o Seu Perfil


Seja você é uma pessoa iniciante e que acabou de notar os passarinhos da janela ou um mesmo um observador veterano explorando parques e reservas, existe uma ferramenta sob medida para você:

Plataforma

Para quem é ideal?

Dica de ouro de conservação

Quem está começando e quer aprender a identificar o que viu/ouviu, além de observadores de espécies de fauna, flora e funga no geral

Use o aplicativo diretamente no campo para registrar a localização com o GPS do celular com máxima precisão.

Quem quer documentar a avifauna nacional com fotos e áudios.

Detalhe o local do registro! Indicar que a observação ocorreu dentro de uma área protegida ou parque específico ajuda no mapeamento dessas áreas.

Quem gosta de fazer listas de aves, registrar o tempo e contar indivíduos.

Ative o GPS no app para ter precisão no percurso e evite pontos genéricos ("hotspots" muito amplos) quando estiver em um local específico.

  

Guia de boas práticas: Valorizando cada registro


Para que a sua nova percepção sobre as aves tenha o maior valor científico possível, siga estes passos simples:


1. Toda espécie importa (Listas completas e contagens)


Não guarde seu aplicativo apenas para quando encontrar uma raridade no meio do mato. Quando fizer uma lista, anote todas as espécies que conseguiu identificar, inclusive o joão-de-barro, o pardal ou a rolinha na fiação elétrica. Tente também estimar a quantidade de indivíduos. Para a ciência, saber a quantidade e a presença constante de espécies comuns é vital para identificar mudanças ecológicas ao longo dos anos.


2. Capriche na precisão da localização e data


Sempre garanta que a data e o ponto exato da observação estejam corretos. Saber o local preciso ajuda cientistas a cruzar dados de presença de aves com imagens de satélite, manchas de vegetação e áreas de expansão urbana ou agrícola, e gerar resultados mais confiáveis sobre a distribuição e necessidades das espécies.


3. Registre fotos e áudios com cuidado


Se conseguir fotografar ou gravar o som (mesmo que com o próprio celular), inclua no seu registro! A documentação ajuda a comprovar a presença da espécie. Essa documentação é mais importante ainda em casos de espécies raras ou fora da distribuição normal.


Atenção com o Merlin: O aplicativo Merlin Bird ID se tornou um grande parceiro para identificar cantos pelo celular, mas use com cautela! Ele é uma excelente ferramenta de apoio, mas pode conter erros e ainda não reconhece muitas das espécies brasileiras. Nunca confirme um registro raro apenas porque o Merlin "ouviu" — tente sempre avistar a ave ou validar com observadores mais experientes.


4. Aprimore seu olhar


Uma das formas mais eficazes, e também mais divertidas, de aprimorar seu conhecimento sobre as aves é participar de passarinhadas coletivas e sair com grupos locais. Um exemplo marcante no Brasil é o Vem Passarinhar Sampa, um projeto que une observadores de aves em parques e áreas verdes da Grande São Paulo.


Vem Passarinhar Sampa. Foto: Marina Fagundes
Vem Passarinhar Sampa. Foto: Marina Fagundes

Envolve não somente encontros de entusiastas, mas também gera dados sobre a ocorrência e distribuição das aves ao longo dos anos. Através de saídas periódicas e registros constantes acumulados, os dados do Vem Passarinhar Sampa podem contribuir a responder perguntas vitais que nenhuma pesquisa pontual conseguiria, e mostra aos gestores públicos quais áreas precisam de proteção prioritária.


Além de aprender na companhia de outros observadores, busque guias de campo e outros livros sobre aves. Outra excelente referência é a plataforma Birds of the World — que hoje conta com fichas em português através de uma parceria com a SAVE Brasil.


Ampliando seus horizontes na observação


Conforme sua sensibilidade para a avifauna aumenta, sua contribuição para a ciência também evolui:


  • Acompanhe o ciclo das estações: Descubra quais espécies migratórias chegam à sua região em determinada época do ano e quais são residentes. 


  • Conheça as espécies endêmicas e ameaçadas: Algumas espécies têm uma distribuição muito restrita, enquanto outras ocorrem em muitas regiões e países. Conheça as espécies que ocorrem somente no seu bioma, onde você mora, e as espécies ameaçadas de extinção, nas listas vermelhas nacional e global.


  • Adote um "ponto de observação": Que tal escolher um parque perto de casa, a praça do bairro ou até a vista da sua janela e fazer listas regulares ao longo de todo o ano? Acompanhar as mudanças ao longo das estações cria uma série temporal valiosíssima.


  • Preencha lacunas no mapa: Visite municípios vizinhos ou locais que possuem poucos registros nas plataformas. Às vezes, a poucos quilômetros de casa existe um "vazio de dados" só esperando a sua visita para revelar grandes surpresas!

 

A natureza espera por você


A ciência cidadã é a prova de que a conservação ambiental não depende só de grandes expedições científicas. Ela começa na nossa postura diária de desacelerar, olhar ao redor e reconhecer a vida que habita o mesmo espaço que nós.


Seja no alto de um prédio na metrópole ou no coração de uma reserva florestal, suas observações são peças fundamentais de um grande quebra-cabeça.


Pegue seu celular, prepare o olhar e lembre-se: cada registro conta e o importante é se divertir no caminho!


Juliana Vitório, bióloga e coordenadora de engajamento da SAVE Brasil

 
 
 

1 comentário


Perry Katy
Perry Katy
há 6 horas

I really like the focus on turning bird observations into useful conservation data. It shows how even casual birdwatching can contribute to something meaningful. After reading this, I’m taking a short break with Golf Hit.

Curtir
Save Brasil e Bird Life

SAVE Brasil - Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil

aves@savebrasil.org.br

Rua Fernão Dias, 219 cj 2 | Pinheiros - SP Brasil | 05427-010 | 
Tel.: (+55) 11 3815-2862

Copyright © 2024 SAVE Brasil

A SAVE Brasil faz parte das redes:

REDE
Instagram icone verde
facebook icone verde
youtube icone verde
bottom of page