Projeto Jacutinga celebra 10 anos de reintrodução da espécie e faz nova soltura na Serra da Mantiqueira
Ação da SAVE Brasil em São Francisco Xavier (SP) marca uma década desde a primeira soltura e chega a 82 jacutingas reintroduzidas; novos transmissores permitem acompanhar os caminhos percorridos pelas aves

Oito jacutingas foram soltas na última semana, em São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. A ação, realizada pela SAVE Brasil por meio do Projeto Jacutinga, acontece dez anos depois da primeira reintrodução da espécie na região e eleva para 82 o número de jacutingas devolvidas à natureza pelo projeto.
Antes de chegar à floresta, as aves passaram por cerca de dois meses de preparação para a vida livre. Nascidas sob cuidados humanos no Parque das Aves e na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), instituições parceiras da SAVE Brasil, elas passam por aclimatação, treinamento alimentar e estímulos para desenvolver comportamentos importantes para a sobrevivência na natureza.
Cada ave é avaliada antes da soltura. Entre os critérios estão a capacidade de se alimentar, reconhecer predadores e apresentar comportamentos compatíveis com a vida livre.
“Uma jacutinga nascida sob cuidados humanos precisa estar preparada para muito mais do que simplesmente estar saudável para ser solta. Ela precisa desenvolver habilidades fundamentais para encontrar alimento, reconhecer ameaças e viver na floresta de forma independente. Só depois dessa avaliação é que a ave está apta para seguir para a natureza”, explica Alecsandra Tassoni, coordenadora do Projeto Jacutinga na SAVE Brasil.
Dez anos de reintrodução

A primeira soltura feita pela SAVE Brasil em São Francisco Xavier ocorreu em junho de 2016, em uma área onde a jacutinga havia deixado de ser registrada. Desde então, o projeto não apenas ampliou o número de aves colocadas em liberdade, mas também acumulou informações sobre o comportamento da espécie e sua adaptação à vida livre.
Um dos principais avanços foi a consolidação do monitoramento participativo. Moradores de São Francisco Xavier e de outras áreas do entorno passaram a registrar as jacutingas encontradas na natureza e compartilhar as informações com a equipe. Somente no primeiro semestre de 2026, foram mais de 45 registros feitos pela comunidade.
“O envolvimento dos moradores no monitoramento participativo é uma das principais conquistas do projeto, especialmente em termos de engajamento. Hoje, a comunidade também faz parte desse processo de acompanhar o retorno da espécie”, afirma Alecsandra.
Novos transmissores mostram os caminhos das aves
Outra mudança importante aconteceu no monitoramento por tecnologia. Os transmissores utilizados atualmente permitem acompanhar os deslocamentos das jacutingas, e não apenas saber onde elas estavam quando eram localizadas.
Até 2025, os equipamentos utilizados pelo projeto forneciam informações pontuais sobre a localização das aves. Com os novos dispositivos, a equipe passou a ter acesso também aos caminhos percorridos, o que permite analisar como as jacutingas utilizam diferentes ambientes da paisagem.

“Antes, tínhamos uma informação específica sobre onde a ave estava. Agora conseguimos acompanhar também seus deslocamentos. Isso amplia nossa capacidade de entender como as jacutingas utilizam o habitat e traz informações importantes para o trabalho de conservação”, explica a coordenadora.
A novidade é especialmente relevante neste momento do projeto, que completa uma década de reintroduções. Com mais informações sobre os deslocamentos, a equipe pode investigar quais áreas são utilizadas pelas aves e como elas se movimentam depois de deixarem o local de soltura.
Os próximos desafios
Dez anos de reintrodução trouxeram evidências de que as jacutingas estão se adaptando à vida livre e utilizando a paisagem. Aves soltas pelo projeto foram registradas, por exemplo, em Monte Verde, em Minas Gerais, mostrando que os indivíduos se deslocam entre diferentes áreas de Mata Atlântica e reforçando a importância da conectividade entre os fragmentos florestais.
Além de sobreviver e ocupar novos ambientes, as jacutingas também voltam a desempenhar seu papel ecológico na região. A espécie é uma importante dispersora de sementes e, ao se alimentar de frutos, contribui para a regeneração desses ambientes.
A reprodução é agora um dos aspectos que seguem sendo acompanhados. O projeto já registrou pareamentos e comportamentos reprodutivos, além de dois ninhos com ovos. Ainda não houve, porém, um registro confirmado de filhotes nascidos na natureza.
O nascimento de novos indivíduos seria um marco importante para o estabelecimento de uma população, mas não é o único indicador de sucesso de uma reintrodução. A sobrevivência, a adaptação à vida livre, os deslocamentos, o uso do habitat e o restabelecimento das funções ecológicas da espécie também são resultados fundamentais.
** O Projeto Jacutinga é uma iniciativa da SAVE Brasil, por meio do Programa Asas, realizado com o apoio da BirdLife Tokyo, Neotropical Bird Club Conservation, Aage V. Jensen Charity Foundation/BirdLife Internacional e Deborah Rivel e em parceria com a Prefeitura de São José dos Campos, Conselho Municipal de Turismo de São José dos Campos, APA SFX, Parque das Aves e UENF.
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