Tesourinhas migrantes da América do Sul

Com um harmonioso tom sobre tom, do preto ao branco, a tesourinha (Tyrannus savana) é uma espécie inconfundível, principalmente pelo capuz negro e a longa cauda que é maior do que o próprio corpo. Nos machos a cauda é mais longa do que nas fêmeas, diferença visível quando as aves estão próximas.

Tesourinha (Tyrannus savana) Foto: Jose Carlos Motta-Junior

Tesourinha (Tyrannus savana)
Foto: Jose Carlos Motta-Junior

As tesourinhas costumam usar áreas abertas, parques urbanos ou mesmo áreas residenciais, onde são vistas muitas vezes realizando voos acrobáticos que saem de um galho onde ficam empoleiradas para capturar insetos no ar. E como qualquer bom defensor da sua prole, a tesourinha é reconhecidamente uma agressiva defensora de seu ninho, atacando quase qualquer ave que sobrevoe seu território, com relatos de agressões a falcões-de-coleira (Falco femoralis) e quiriquiris (F. sparverius).

Existem quatro subespécies de tesourinha (Tyrannus savana), que é uma ave comum na América do Sul. Mas, então, o que a torna tão diferente das outras espécies? Com apenas cerca de 30g, a tesourinha consegue fazer longas viagens pela América do Sul durante sua rota migratória.

As tesourinhas tem populações migrantes intra-tropicais e temperadas-tropicais, e populações totalmente residentes. Uma parceria entre pesquisadores dos países da América do Sul, incluindo o Brasil, tem permitido estudos com a espécie. Em 2009 e 2010 seis indivíduos da espécie que estavam em período reprodutivo receberam geolocalizadores (pequenos aparelhos através dos quais os pesquisadores podem seguir as aves durante a migração) em Buenos Aires, na Argentina. Após o período reprodutivo esses indivíduos migraram para a região Noroeste da América do Sul, entre o Peru, Colômbia e Brasil, e depois foram para a Venezuela passar o resto do inverno. Todo esse percurso durou apenas de 7 a 12 semanas, e com uma velocidade média de 45 a 66 km/dia elas viajaram 4.105km!

Estudos analisaram a diferença entre a morfologia da asa de duas subespécies da tesourinha, migrantes (na Argentina e Brasil) e não migrantes (residentes, na Colômbia), e observaram que as subespécies migratórias tendem a ter asas mais pontudas, sendo aerodinamicamente favoráveis a voos rápidos e prolongados. Esse formato permite que as aves sejam melhores sustentadas no ar com um menor gasto energético. As tesourinhas migratórias costumam dormir em uma mesma árvore ou árvores próximas durante a migração ou inverno, seja em áreas naturais, ou em áreas urbanas. No mês de julho, quando uma população migratória passa pelo norte do Brasil, é possível ver milhares voando juntas por cima de grandes centros como Manaus-AM, enfrentando as mais variadas condições climáticas, até tempestades.

Apesar de vários estudos sobre a espécie terem sido feitos nos últimos anos, ainda temos muitas dúvidas, como por exemplo, a função da cauda longa nessa espécie que ainda é desconhecida, especialmente nos machos. A razão seria atrair as fêmeas, que talvez tenham preferência por caudas mais compridas? Ou talvez a cauda longa possa ajudar a forragear na busca por insetos? Estudos ainda são necessários para entendermos os segredos desses pequenos migrantes.

 

Agradecemos a colaboração do Dr Alejandro E. Jahn pelas informações e contribuições para o texto.

JAHN, A. E, AND D. T. TUERO. 2013. Fork-tailed Flycatcher (Tyrannus savana). In: Neotropical birds online (T. S. Schulenberg, ed.). Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY. <http://neotropical.birds.cornell.edu/portal/species/overview?p_p_spp=482636>.