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Boa Nova/Serra da Ouricana, Bahia
A região de Boa Nova, localizada no nordeste do Planalto da Conquista, sul da Bahia, vem chamando a atenção dos ornitológos há alguns anos em função da sua peculiar avifauna, com elementos típicos das florestas de montanha do bioma Mata Atlântica em contato com elementos endêmicos da Caatinga. Nesta área de transição encontra-se a mata-de-cipó, área de ocorrência do ameaçado Rhopornis ardesiacus, o Gravatazeiro, uma das aves mais raras no Brasil, e do Formigueiro-do-nordeste Formicivora iheringi. Boa Nova abriga mais de 300 espécies de aves, 10 delas globalmente ameaçadas de extinção. Apesar de sua grande riqueza biológica, a região não está protegida sob nenhuma reserva pública e vinha sendo negligenciada em termos de conservação. Como resultado, restaram menos de 2.6% de suas matas originais.
A BirdLife/SAVE Brasil vem trabalhando desde 2004 na implementação de um programa de conservação em Boa Nova. Visando consolidar as ações na região, um assistente de projeto reside em Boa Nova desde Setembro de 2005 para atuar na implementação de diversas atividades ligadas à pesquisa biológica do Gravatazeiro, formação de um grupo local de trabalho composto por membros da comunidade, manejo da paisagem e desenvolvimento de ações de educação ambiental. A BirdLife/SAVE Brasil integra ainda um grupo de ONGs que, em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente, está propondo a criação de uma rede de unidades de conservação públicas na região do Corredor Central da Mata Atlântica, onde Boa Nova está localizada. Uma dessas unidades está prevista para ser criada na região de Boa Nova, englobando tanto áreas de mata-de-cipó quanto de matas úmidas.
Objetivo: Assegurar a conservação das matas existentes na região de Boa Nova e das espécies endêmicas e ameaçadas de extinção que nelas ocorrem, por meio de um conjunto integrado de ações que envolve pesquisa científica, engajamento comunitário, educação e sensibilização ambiental e articulação de políticas públicas, especialmente voltadas à criação de unidades de conservação.
Início do projeto: 2000
Duração do projeto: contínuo
Principais resultados:
Pesquisa científica
O Gravatazeiro Rhopornis ardesiacus, espécie-alvo dos esforços de pesquisa desse projeto, vem sendo continuamente estudado e monitorado desde Agosto de 2005. Após um ano de trabalho de campo, a BirdLife/SAVE Brasil concluiu o mapa das áreas de ocorrência dessa espécie. Algumas dessas áreas apresentam uma porção considerável de mata-de-cipó em boas condições e seus proprietários mostram-se interessados na sua conservação por possuírem em suas propriedades uma espécie de interesse global.
Um dos mais importantes resultados da pesquisa foi a descoberta do ninho do Gravatazeiro, que está sendo descrito pela BirdLife/SAVE Brasil. Essa é a primeira descrição do comportamento reprodutivo dessa espécie, o que será importante para entender a relação entre a ave e a bromélia terrestre Gravatá (Aechmea aquilega ), onde o ninho é construído, e para propor medidas mais apropriadas para a sua conservação. Visando coletar dados sobre a área de vida do Gravatazeiro, seu comportamento reprodutivo e alimentar e estimar o tamanho de sua população em Boa Nova, alguns indivíduos da espécie estão sendo anilhados e monitorados. Análises preliminares revelam que o Gravatazeiro tem um território fixo que varia de 0.9 a 2 hectares. Em relação ao seu comportamento alimentar, observamos que a espécie utiliza basicamente as folhagens caídas no solo para procurar alimento, dado fundamental para propor estratégias de manejo das áreas onde a espécie vive.
As informações obtidas por meio da pesquisa estão sendo também de grande utilidade para a realização das atividades de educação ambiental, disseminação e para a seleção de áreas para a criação de unidades de conservação. Além disso, os dados gerais levantados pelo projeto acerca das áreas importantes para as aves na região estão subsidiando o trabalho da Secretaria de Meio Ambiente de Boa Nova de combate ao tráfico de aves.
O projeto está também dando suporte técnico e logístico a pesquisadores de outras entidades que estão estudando a região. Entre eles podemos citar ornitólogos da Universidade Católica de Pelotas que foram à Boa Nova realizar pesquisas taxonômicas relativas à descrição de uma nova espécie de pássaro da família Rhynocriptidae, aparentemente endêmico das florestas úmidas das montanhas da Bahia. Essa descoberta é muito importante para reforçar a necessidade de iniciativas que visem à conservação das florestas de Boa Nova. Uma estudante da Universidade Federal de Ouro Preto está realizando um estudo sobre a influência da fragmentação de hábitat na predação de ovos do Gravatazeiro em ninhos artificiais colocados nos Gravatás. Essa pesquisa simulou a estratégia de reprodução de Rhopornis ardesiacus e fornecerá dados relativos ao seu sucesso reprodutivo em áreas fragmentadas. Apoiamos também pesquisadores do Instituto Dríades que realizaram inédito inventário de anfíbios e répteis das florestas de Boa Nova. O resultado mais importante desse estudo foi à descoberta de duas possíveis novas espécies de anfíbios na região.
Sensibilização e educação ambiental
As atividades de sensibilização e educação ambiental têm sido muito bem sucedidas em Boa Nova. A comunidade local se mostrou bastante empolgada ao descobrir a existência de um grupo de aves tão rico e único e isso está resultando em uma infinidade de iniciativas em desenvolvimento na região. A prefeitura de Boa Nova, com base em informações e fotos cedidas pela BirdLife/SAVE Brasil, elaborou um cartaz sobre o Gravatazeiro que está sendo utilizado para disseminar a biodiversidade da região junto à comunidade.
Outro importante resultado desse trabalho de disseminação de informações à comunidade, foi o desenvolvimento pelo governo local de Boa Nova do Projeto Gravatazeiro parceria para o ecodesenvolvimento que conquistou o terceiro lugar na categoria “Município Sustentável” do Prêmio Bahia Ambiental.
Palestras sobre o Gravatazeiro e a biodiversidade de Boa Nova, e saídas a campo para observação de aves também estão sendo promovidas pela BirdLife/SAVE Brasil, especialmente junto às escolas das zonas urbana e rural. O público é composto principalmente por crianças e adolescentes, mas também por membros de associações rurais, proprietários de terra, madeireiros, estudantes de cursos técnicos e universidades e adultos em alfabetização.
Calculamos que mais de 1.500 pessoas já participaram dessas atividades. Um exemplo notável do engajamento comunitário resultante do projeto é a comunidade rural da Goiabeira, localizada em um dos principais remanescentes de mata-de-cipó. A Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Santa Madalena, em conjunto com a BirdLife/SAVE Brasil, vem organizando seminários e visitas de campo com as crianças da comunidade. Durante esses encontros, são realizadas dinâmicas educativas através de músicas e desenho sobre o meio ambiente. A comunidade também está mobilizada para reduzir o desmatamento na região, discutindo o assunto com proprietários onde esses casos acontecem e com as autoridades locais. De fato, após o início dos trabalhos com a comunidade da Goiabeira, as ocorrências de desmatamentos nessa região reduziram consideravelmente.
As informações disseminadas pela SAVE Brasil por meio das atividades de educação ambiental vêm sendo incorporadas também na vida cultural de Boa Nova. O município tem um time de futebol chamado Gravatazeiro e dois artistas locais – um escultor e um artista plástico – criaram obras relacionadas à espécie, às riquezas naturais locais e também às ameaças existentes. Esculturas do Gravatazeiro foram confeccionadas contribuindo para disseminar o conhecimento sobre a biodiversidade da região e estimulando o interesse da população pela arte e cultura. Em conjunto com o artista plástico, a BirdLife/SAVE Brasil desenvolveu uma cartilha educativa sobre o Gravatazeiro e a mata-de-cipó. Além disso, o jornal local GAMBOA e a rádio comunitário de Boa Nova periodicamente veiculam mensagens relacionadas ao projeto e à conservação das matas da região.
Além das cartilhas, foram desenvolvidas para as ações de educação ambiental com as crianças da zona rural pulseiras com a frase “Sou Amigo do Gravatazeiro”. A idéia da campanha foi associar as pulseiras às anilhas utilizadas no Gravatazeiro, criando um vínculo entre as crianças e a ave.
Finalmente, outro importante resultado do trabalho de disseminação foi a divulgação nacional do projeto, através de matéria jornalística produzida por uma rede de televisão. Essa matéria durou 2 minutos e foi exibida no principal programa jornalístico da televisão do Brasil. A divulgação do projeto em rede nacional possibilitou alertar o grande público para a importância de preservação da biodiversidade de Boa Nova.
Áreas protegidas
Uma iniciativa liderada pelo Ministério do Meio Ambiente em conjunto com várias organizações conservacionistas está sendo conduzida para estabelecer uma rede de unidades de conservação no estado da Bahia. Uma dessas unidades, de aproximadamente 32.000 hectares, está prevista para ser criada em Boa Nova, englobando tanto áreas de mata-de-cipó quanto de mata úmida. A BirdLife/SAVE Brasil é parte dessa iniciativa e vem oferecendo apoio técnico e logístico ao Ministério do Meio Ambiente para a criação da reserva. Em Dezembro de 2006, foram realizadas as consultas públicas com a comunidade de Boa Nova. Com base nos comentários feitos durante as consultas públicas, a proposta será reformulada e enviada à Casa Civil, última instância antes do Decreto Presidencial que oficializa a criação da reserva.
Trabalhando juntos pelas aves e pelas pessoas
Em Boa Nova, o envolvimento direto da BirdLife/SAVE Brasil com a comunidade local tem produzido impactos muito positivos, transformando a percepção e o comportamento da população em relação aos recursos naturais de maneiras que muitas vezes superam nossas expectativas. A ave Gravatazeiro, que no início desse projeto em 2005 era desconhecida da comunidade, tornou-se o símbolo da região e é hoje uma significante força à conservação de Boa Nova.
Financiadores: American Bird Conservancy, Overbrook Foundation, Council of Agriculture of Taiwan, Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF), Dutch Government (DGIS), Disney Wildlife Conservation Fund (DWCF), The Wetland Trust, que doou as anilhas coloridas para o trabalho de pesquisa científica, e doadores individuais.