O derrame de óleo nas praias do nordeste brasileiro e as aves limícolas migratórias

O derrame de óleo nas praias do nordeste brasileiro e as aves limícolas migratórias

Porque a ave se suja quando em tese poderia voar e “escolher” onde pousar?

A resposta tem vários níveis que incluem a evolução dos comportamentos, a disponibilidade do alimento ao longo da costa, a dinâmica da migração e a forma de se alimentar.

  1. As aves não entendem o perigo – não houve a evolução do comportamento de defesa frente a “óleo” nas áreas de alimentação

As aves migratórias evoluíram para evitar várias intempéries e “desastres” naturais, como por exemplo furacões. Pesquisadores já observaram que as aves desviam de furacões quando estão migrando, ou quando estão próximas às ilhas do Caribe, elas pousam esperando a turbulência passar. Algumas vezes conseguem inclusive usar os ventos a seu favor. Isso acontece porque esse fenômeno existe há milhões de anos e as aves desenvolveram mecanismos de defesa para se proteger. No entanto, derrame de petróleo no mar não é um desastre natural e passou a ser provocado pelo homem nas últimas décadas. As aves não desenvolveram mecanismos de defesa/reconhecimento e por isso não percebem o perigo. Inclusive, dependendo do ambiente onde as manchas estão, por exemplo em manguezais, as manchas podem ser confundidas com lama.

  1. As aves podem estar usando áreas sem óleo quando pousam, mas o óleo chega enquanto estão se alimentando.

A chegada do óleo às praias pode não ter acontecido antes das aves chegarem. Elas podem até ter pousado em uma área sem óleo, mas estarem se alimentando na beira da água quando o óleo chegou à praia. Nesse caso podem tanto ingerir como se sujarem de óleo.

 

Consequências do contato das aves com o óleo

  1. Manchas pequenas podem ser confundidas com “sujeira” na zona entre marés.

É comum em áreas de parada e alimentação encontrar algas, sargaço, folhas, troncos, madeiras, etc., que vem à praia trazidos pelas correntes marinhas. As pequenas manchas de óleo podem estar entremeadas com essa matéria orgânica, que também tem pequenos animais (invertebrados) que são alimento para algumas espécies. Enquanto se alimentam andando nesse material, as aves acabam se sujando com o óleo.

Várias espécies de aves limícolas migratórias se alimentam perfurando a areia com o bico para encontrar os invertebrados (mariscos, caranguejo chama-maré, poliquetas, entre outros); alimentam-se de uma forma frenética, mergulhando o bico na água (às vezes a cabeça inteira) e na areia numa rapidez que nos remete ao movimento da agulha numa máquina de costura. Isso impede com que vejam manchas chegando na água. Adicionalmente, ao perfurar a areia/lama para encontrar o alimento podem sugar essas pequeninas manchas espalhadas pela área (Figura 3). Podem ainda, pisar ou se sujar quando se deitam para descansar (Figura 4). O óleo que fica nas patas e/ou penas pode ser ingerido pois a única forma que a ave tem de tentar se limpar é com o bico (Figuras 1 – 4). O óleo prejudica a impermeabilidade da pena e a ave fica molhada, e passa frio (hipotermia). Numa contagem de 20 minutos de duração em Estância (SE), estuário do Vaza-Barris, divisa com o estado da Bahia, conduzida pelo especialista Bruno Jackson Melo de Almeida, 15% das aves tinham manchas de óleo (50 aves no total). Na foto encaminhada por ele, dos cinco maçaricos brancos três possuem manchas (Figura 2). Essa espécie é personagem principal do curta-metragem da Pixar, que leva o nome de “Piper”.

Distribuição do alimento não é homogênea ao longo de toda a costa Quando migram, ou quando estão nas áreas de “invernada” (referência ao inverno no hemisfério norte) descansando em nossas praias e manguezais, as aves migratórias são frequentemente encontradas em grandes concentrações. Viajar em grandes grupos é uma forma de proteção contra-ataques de predadores, além de melhorar a aerodinâmica e diminuir o desgaste das penas. Assim, grandes grupos precisam de áreas com grande oferta de alimento porque todos precisam ganhar peso rapidamente. A costa (praia e manguezais) não é homogênea – existe concentração de alimento em algumas porções apenas, como próximo à foz de rios e baías. São nesses lugares que as aves migratórias são encontradas com mais frequência. Como exemplo de áreas importantes temos as Reentrâncias Maranhenses, o Delta do Rio Parnaíba, o Banco dos Cajuais, Bacia Potiguar e a foz do rio Vaza-Barris, segundo o Plano de Ação Nacional para Aves Limícolas Migratórias. Das cinco áreas citadas aqui, três (Reentrâncias Maranhenses [representada pela RESEX Cururupu], Delta do Parnaíba e foz do Vaza-Barris) foram afetadas por manchas de óleo (Tabela 1). Todas essas áreas são utilizadas por espécies ameaçadas de extinção, sendo que das quatro espécies de aves limícolas ameaçadas encontradas nesses sítios, três são migratórias. Uma é residente e está iniciando na época de reprodução. Para melhor compreensão, é possível fazer a seguinte analogia: para se fazer uma viagem de avião (ou de carro) de 20.000km, do ártico à Patagônia, é preciso planejamento. O avião não consegue fazer toda a viagem sem parar para abastecer. Existem locais onde o avião não tem como pousar (como no mar ou em regiões montanhosas), e existe uma extensa área de costa/praia onde pode pousar. Só que ao longo dessa costa só existe posto de combustível em alguns pontos, mas nem todos tem o combustível que o seu avião precisa, ou tem mas não em quantidade ou qualidade suficiente para fazer a próxima etapa da viagem. Você faz o planejamento da viagem, sabendo onde pode parar. Só que quando chega lá, o posto não existe mais ou não tem o combustível que você precisa. Se você ainda tiver um pouco de combustível, tenta chegar no próximo posto, mas se você teve que desviar de um furacão e gastou combustível adicional, não consegue chegar até o próximo posto; coloca o combustível que tem. Só que o combustível adulterado não permite que você chegue ao seu próximo ponto de parada – seu avião pode cair… Essa é mais ou menos a dinâmica dessas aves. Existem pontos específicos onde elas podem encontrar alimento, se não conseguem nessa área, mesmo que se desloquem um pouco mais, não conseguem suprir as necessidades.

  1. Forma de limpeza da praia pode remover o alimento das aves

Em reportagem da MarcoZero, foi mostrado tratores retirando a camada superior das praias para remover as manchas de óleo em Piaçabuçu, em Alagoas. O alimento dessas aves está na camada superior da areia (veja Figura 5). Uma vez removida a camada superior da areia, as aves não encontrarão no local o alimento que precisam.

  1. O impacto de derramamento de óleo no mar sobre aves limícolas, costeiras e marinhas pode ser imenso.

No acidente da BP no Golfo do México (Deep Water Horizon Spill) estima-se que 1 bilhão de aves morreram devido ao vazamento (“estimated that 800,000 coastal birds died during the acute phase of the Deepwater Horizon spill. The second paper examined the mortality of offshore birds. In that paper, the authors found that approximately 200,000 offshore birds died during the spill’s acute phase” – fonte: National Audubon e New York Times). Em contraste, nenhuma medida foi tomada no Brasil até essa última semana, mais de 30 dias depois que as primeiras manchas chegaram a praias e o óleo esparramou-se por mais de 170 praias ao longo do Nordeste do Brasil. Não existe previsão de onde ou quando o óleo ainda pode chegar, nem de quanto óleo. Além disso, no vazamento da BP houve um grande movimento de mobilização, 47 mil pessoas trabalharam para conter os impactos. Mesmo guardada as devidas proporções quanto ao volume de óleo, não houve esforço no Brasil para mobilizar pessoas para conter o impacto causado ao longo de metade da costa brasileira.

Confira o Posicionamento do Grupo de Assessoramento Técnico (GAT) e Colaboradores do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves Limícolas Migratórias sobre o derrame de óleo nas praias do nordeste