Cinco espécies brasileiras estão entre as primeiras extinções de aves a serem anunciadas nessa década

Cinco espécies brasileiras estão entre as primeiras extinções de aves a serem anunciadas nessa década

Uma nova avaliação das aves mais raras do mundo recomenda que 8 espécies sejam adicionadas à lista de extinções
confirmadas ou presumidas. A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), a arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus), o caburé-de-pernambuco (Glaucidium mooreorum), o limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi) e o gritador-do-nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti) estão nessa lista.

Essas espécies, com exceção da ararinha-azul, que ainda possui uma população em cativeiro, já eram consideradas extintas pela Lista Vermelha Nacional do MMA, mas ainda eram reconhecidas como Criticamente Em Perigo (CR) pela BirdLife e pela IUCN.

Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii)

Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii)

Essas últimas perdas mostram a urgência dessa crise, trazendo o número de extinções de aves confirmadas ou prováveis para 187 desde o ano 1500. Esse estudo foi conduzido pela BirdLife International, a autoridade de aves para a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, e usa uma nova abordagem estatística para analisar dados sobre aves classificadas como Criticamente Em Perigo, a mais alta categoria de ameaça antes da espécie ser considerada extinta.

Arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) © USA Public Domain Bourjot Saint-Hillaire

Arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) © USA Public Domain Bourjot Saint-Hillaire

Esse método é o primeiro a quantificar 3 fatores de uma só vez: a intensidade de ameaças a uma espécie, o tempo e a confiabilidade dos registros das espécies, e o tempo e qualidade dos esforços de busca.

Os autores avaliaram 61 espécies com extinções potenciais ou confirmadas, levando oito anos para analisar a literatura e informações de especialistas. Através desse processo, foi recomendado que três espécies previamente consideradas ‘Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinta) ’ agora devem ser reclassificadas como Extintas, enquanto outra, a ararinha-azul, deve ser tratada como Extinta na Natureza. Também foi recomendado que quatro espécies previamente consideradas Criticamente em Perigo devem ser movidas para a lista das ‘Criticamente em Perigo (Possivelmente Extintas)’, significando que mais pesquisas são necessárias para confirmar sua extinção.

Historicamente, a maioria das extinções de aves foram causadas pelos impactos de espécies invasoras (46%) e caça/captura (26%) em ilhas. Entretanto, a perda de habitat pelo desmatamento nos continentes teve um papel principal nessas extinções recentes. Cinco das oito novas extinções identificadas ocorreram no Brasil, refletindo os efeitos devastadores da alta taxa de desmatamento nessa parte do mundo.

Apesar de fazer mais de uma década desde que muitas dessas espécies foram vistas pela última vez, Stuart Butchart, o Cientista Chefe da BirdLife International e autor principal desse artigo, enfatiza a importância de não se declarar extinções prematuramente: “Determinar se uma espécie foi extinta é muito desafiador, já que normalmente é difícil de saber se os últimos indivíduos morreram, principalmente no caso de espécies pouco conhecidas em locais remotos. Enquanto precisamos de medidas precisas de taxas de extinção, desistir prematuramente de uma espécie traz o risco de se cometer um engano conhecido como Erro de Romeu, no qual esforços de conservação são abandonados prematuramente na presunção de que uma espécie desapareceu. ”

Butchart também ressalta a preocupante tendência refletida nessas últimas extinções: “Noventa por cento das extinções de aves nos séculos recentes ocorreram em ilhas (tipicamente devido às consequências de sobre-caça e invasão de espécies exóticas). Entretanto, nossos resultados confirmam que há uma crescente onda de extinção varrendo os continentes, ocasionada principalmente pela perda de habitat e degradação causada pela extração de madeira e agricultura insustentáveis”.

As perspectivas podem parecer bastante sombrias, mas esse estudo fornece ao mundo da conservação informações vitais sobre onde focar suas ações. “Enquanto os resultados sugerem que é muito tarde para ajudarmos algumas espécies icônicas, as aves são mais bem conhecidas que qualquer outra classe taxonômica, então sabemos quais espécies estão sob maior risco e quais ações e locais são necessários para salvá-las. Esse estudo deve inspirar esforços redobrados para prevenir mais extinções induzidas por humanos nos próximos anos”. Diz Melanie Heath, Diretora de Ciência, Políticas e Gestão de Informação da BirdLife International.

A SAVE Brasil, parceira da BirdLife no país, já vem aumentando seus esforços contínuos para conservar os habitats únicos que existem no Brasil. “Essas extinções recém-confirmadas são consequência da intensa perda de habitat que estamos enfrentando no Brasil, principalmente na Mata Atlântica do Nordeste. Outras espécies Criticamente em Perigo que vivem nessa região estão à beira da extinção, entretanto, nossos atuais esforços de conservação estão preservando os remanescentes florestais, restaurando habitats e engajando as comunidades locais. É muito triste saber que perdemos essas espécies, mas não é tarde para salvar muitas outras”, diz Pedro Develey, diretor executivo da SAVE Brasil.

Em uma nota final otimista, o estudo também recomenda uma mudança positiva. O Acrocephalus longirostris, passeriforme endêmico da Polinésia Francesa está atualmente listado como Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto), mas o estudo recomenda sua reclassificação como Criticamente em Perigo. Apesar do último registro confirmado ser de 1981, desde 2000 houveram três registros não-confirmados, e a falta de buscas direcionadas desde 1987 fornecem alguma esperança de que a espécie pode sobreviver.

Novas recomendações de classificação das espécies avaliadas pelo estudo

Nome comum Categoria na Lista Vermelha de 2017 (BirdLife/IUCN) Nova recomendação Data estimada da extinção
Ararinha-azul Criticamente em Perigo (Extinta na Natureza) Extinta na Natureza 2000
Gritador-do-nordeste Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) Extinto 2007
Limpa-folha-do-nordeste Criticamente em Perigo Extinto 2011
Poo-uli Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) Extinto 2004
Arara-azul-pequena Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) 1998
Caburé-de-pernambuco Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) 2001
Javan Lapwing Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) 1944
New Caledonian Lorikeet Criticamente em Perigo Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinto) 1987

 

NOTAS

O estudo por  Stuart Butchart, Stephen Lowe, Rob Martin, Andy Symes, James Westrip e Hannah Wheatley, “Which bird species have gone extinct? A novel quantitative classification approach” foi publicado no periódico Biological Conservation em 1 de setembro de 2018.

Acredita-se que o registro de uma ararinha-azul na natureza em Curaçá, Bahia, em 2016 tenha se tratado de um indivíduo cativo que foi solto. .

Essas recomendações serão agora abertas para consulta com especialistas através dos Fóruns de Espécies Globalmente Ameaçadas da BirdLife, e os resultados estarão na atualização de 2019 da Lista Vermelha da  IUCN, já que a BirdLife é a autoridade da Lista Vermelha para todas as espécies de aves do mundo.

A nova abordagem aplicada pelos autores está descrita em maiores detalhes em uma trilogia de artigos recentes (ver abaixo) e a Lista Vermelha da IUCN está testando esse método em outros grupos taxonômicos.

Keith, D. A., Butchart, S. H. M., Regan, H. M., Collen, B., Harrison, I., Solow, A. R. and Burgman, M. A. (2017) Inferring extinctions I: A structured method using information on threats. Biol. Conserv. 214: 320-327.

Thompson, C. J., Koshkina, V., Burgman, M. A., Butchart, S. H. M. and Stone, L. (2017) Inferring extinctions II: An iterative model based on records and surveys. Biol. Conserv. 214: 328-335.

Akcakaya, H. R., Keith, D. A., Burgman, M., Butchart, S. H. M., Hoffmann, M., Regan, Helen, M., Harrison, I. and Boakes, E. (2017) Inferring Extinctions III: A cost-benefit framework for listing extinct species. Biol. Conserv. 214: 336-342.

A BirdLife International é a maior parceria de conservação do mundo. Juntos somos 117 Parceiros BirdLife por todo o mundo, um por país, e crescendo, com quase 11 milhões de apoiadores, 7.000 grupos locais de conservação e 7.400 funcionários. Como a autoridade oficial para as aves da Lista Vermelha da IUCN, a BirdLife coordena o processo de avaliação de todas as espécies de aves segundo as categorias e critérios da Lista Vermelha, para avaliar seu risco de extinção. Saiba mais em: www.birdlife.org

Parceira e representante da BirdLife no Brasil, a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil – SAVE Brasil é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, com foco na conservação das aves brasileiras. Como parceira da BirdLife International, segue os objetivos globais da aliança no âmbito nacional, adequando-os às necessidades do cenário brasileiro. No Brasil, a BirdLife International iniciou o Programa do Brasil, que em 2004 se consolidaria na SAVE Brasil. Ao longo de mais de 10 anos de existência a SAVE Brasil conseguiu importantes resultados na conservação das aves brasileiras: articulação para a criação de mais de 60.000 hectares de áreas protegidas públicas e privadas em locais de elevada biodiversidade, identificação e mapeamento de 237 IBAs (Important Birds and Biodiversity Areas) no Brasil, a implementação de ações de restauração ambiental e fomento a práticas agrícolas ambientalmente amigáveis, a elaboração de planos de conservação para espécies ameaçadas, a soltura e reintrodução de espécies em seus ambientes naturais, além de inúmeras ações relacionadas a sensibilização e educação ambiental nos biomas da Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Cerrado.

A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN ( IUCN Red List of Threatened Species™)  (ou somente Lista Vermelha da IUCN/ IUCN Red List) é um recurso de valor inestimável para guiar as ações de conservação e decisões de políticas. É um medidor da saúde de nosso planeta, um barômetro da vida. É a mais completa fonte de informações sobre o status global de conservação de espécies de plantas, animais e fungos. É baseada em um sistema objetivo para avaliar o risco de extinção de uma espécie, no caso de nenhuma ação de conservação ser tomada.

As espécies são classificadas em uma das oito categorias de ameaça baseadas nos critérios ligados à tendências populacionais, tamanho e estrutura populacional e distribuição geográfica. Espécies listadas como Criticamente em Perigo, Em Perigo ou Vulnerável são descritas como “Ameaçadas”.

A Lista Vermelha da IUCN não é apenas um registro de nomes associados à categorias de ameaça. É um rico compêndio de informações sobre as ameaças às espécies, seus requerimentos ecológicos, onde eles habitam e informações sobre ações de conservação que podem ser usadas para reduzir ou prevenir extinções. A Lista Vermelha da IUCN é um esforço conjunto entre a IUCN e sua Comissão para a Sobrevivência de Espécies (Species Survival Commission), trabalhando com os Parceiros da Lista Vermelha da IUCN – Arizona State University, BirdLife International; Botanic Gardens Conservation International; Conservation International; NatureServe; Royal Botanic Gardens, Kew; Sapienza University of Rome; Texas A&M University; e Zoological Society of London. www.iucnredlist.org andwww.birdlife.org/datazone for the bird-specific Red List.