Por que as áreas úmidas são tão especiais?

Os manguezais são um dos ambientes úmidos costeiros mais ameaçados no mundo, apresentando 75% de sua cobertura original sob intensa pressão antrópica. No Brasil, esses ambientes distribuem-se desde o Amapá até Santa Catarina, apresentando uma vasta dinâmica hídrica que funciona como um importante berçário natural para inúmeras espécies de peixes, mamíferos, aves e crustáceos. Os manguezais também possuem papel imprescindível na conservação de diversos serviços ecossistêmicos, como a manutenção dos estoques pesqueiros, controle do avanço da maré sobre o litoral e remoção de gases de efeito estufa.

A ação conjunta de ambientalistas, ONGs e o ICMBio, contribui fortemente para a conservação de 87% de toda a extensão de manguezais que se encontram sob alguma modalidade de Unidades de Conservação (sendo 55 federais, 46 estaduais e 19 municipais, dessas 83% são de uso sustentável e 17% de proteção integral), cobrindo uma área total de 1.211.444 hectares.

Esse ecossistema sofre com ações desordenadas que causam importantes perdas de áreas ao longo da costa brasileira. As principais atividades que impactam diretamente essas áreas são: piscicultura, carcinicultura, produção de sal, expansão de zonas urbanas, alteração de regimes hídricos (irrigação e criação de barragens), sobrexploração (remoção de madeira, peixes, crustáceos e caça) e poluição.

A SAVE Brasil tem atuado nessas regiões com o objetivo de entender com as ações antrópicas afetam as espécies, principalmente aves limícolas migratórias, e seus habitats em alguns ambientes úmidos dos estados do Norte e Nordeste. No Rio Grande do Norte, por exemplo, censos realizados desde 2015 tem revelado uma alta importância da região setentrional do estado (também conhecido como região da Costa Branca, ou Bacia Potiguar) para aves limícolas migratórias. Ao todo, foram identificadas 19 espécies de aves presentes em maior concentração entre os meses de setembro de maio, sendo 4 dessas espécies ameaçadas de extinção: o maçarico-de-papo-vermelho, o maçarico-de-costas-brancas, o maçarico-rasteirinho e a batuíra-bicuda. Nos estados do Maranhão, Pará e Amapá, nossa equipe também tem realizado pesquisas para entender como é a relação histórica entre comunidades pesqueiras e as aves em Unidades de Conservação ao longo das áreas de costas nesses estados. Através de questionários semiestruturados, nossa equipe identificou cerca de 20 espécies de aves capturadas para alimentação e/ou criação, sendo 15 espécies limícolas migratórias, considerado ainda um dos grupos mais capturados. Nossos resultados mostram um forte e intenso período de caça principalmente na década de 80, e um cenário ainda atual de captura de maçaricos, garças, marrecos e guarás.

De uma maneira geral, esses estudos ajudam a entender como comunidades locais interagem com as aves e como a sociedade civil junto ao governo podem agir para traçar políticas voltadas a educação e conscientização ambiental.

Patrocinadores: Instituto Neoenergia e NFWF